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Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongolia

Por Pedro Santos a quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Nunca tinha estado num local com um horizonte tão distante...

Sentes-te esmagado pela agitação urbana? Farto de esbarrar com SUVs estradistas quando queres explorar a Natureza? Precisas de espaço? Se a resposta é afirmativa precisas de ir à Mongólia. Pouco menos que viajar a um dos Pólos, não há local mais apropriado para escapar da confusão do dia-a-dia.

Artigo de Arthur St. Antoine, fotos de Neil Emmerson, adaptação de Pedro Santos

A nação asiática de Genghis Khan, trancada entre a Rússia a Norte e China a Sul, a Mongólia tem o dobro do tamanho do estado do Texas mas tem menos de três milhões de pessoas e quase 40% está concentrada na capital Ulan Bator. Esta baixíssima densidade populacional na maioria do seu território torna a Mongólia no País mais dispersamente habitado do Mundo. E compreensivelmente: Para além dos vários espaços inabitáveis, com enormes montanhas no Norte e o ardente deserto do Gobi ao Sul e pouca terra arável em qualquer outro lugar, a Mongólia tem também algumas das temperaturas mais extremas do Mundo: 30 graus Celsius negativos em Janeiro, mais de 40 no Verão e apenas 380mm de chuva por ano... Muito seco.

Mas quando se está à procura de algum espaço para respirar, a Mongólia é o destino de sonho, ainda por cima quando praticamente não tem estradas pavimentadas. Um enorme parque de diversões para 4x4. É por isso que, no próximo Verão, será aqui que irá decorrer a final do G4 Challenge, uma prova de três semanas com 18 equipas representando os seus países e combinando condução em todo-o-terreno com BTT, kayak e escalada. Os participantes competem apenas pela satisfação pessoal, dado que os prémios, um Land Rover e apoio financeiro, são doados à Cruz Vermelha ou Crescente Vermelho do país vencedor.

Nunca tinha estado num local com um horizonte tão distante e com tão poucos sinais de presença humana. Conduzir pelo sul da Mongólia é como visitar um planeta Terra em estado primordial, sem estradas, só marcas de pneus na terra, sem vedações, sem cartazes, sem cabos eléctricos ou aviões no enorme céu azul. Nunca tinha visto um céu como este. A Mongólia só tem praticamente altas pressões o que significa quase 300 dias por ano sem nuvens. Durante a minha estadia tivemos alguma chuva, mas mesmo com algumas nuvens o céu parecia estar ao alcance da mão.

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Conduzir pelo sul da Mongólia é como visitar um planeta Terra em estado primordial...



Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Passámos tardes inteiras sem ver ninguém.
A viagem em primeira mão
Aos participantes do G4 espera-lhes um festim de todo-terreno. Não há muitas regras de condução por aqui, pode-se seguir os trilhos mas também se pode ir onde se quiser... Do nascer ao pôr-do-Sol atravessámos trilhos pedregosos das estepes, rios gelados, transpusemos enormes dunas de areia, trepámos rochas gigantes e guinchámo-no-nos uns aos outros de poços de lama espessa. Passámos tardes inteiras sem ver ninguém. De vez em quando encontrávamos, numa planície rochosa com erva dispersa, um jovem rapaz a tomar conta de uma quantidade imensa de ovelhas e cabras, com o seu "ger", as casa típicas mongóis, tipo tenda, visível à distância. Comparados com isto, as nossas refeições de campismo e sacos cama de penas pareciam o Ritz.

Apesar destes territórios serem rudes, selvagens e largamente desconhecidos, o nosso grupo fez questão de deixar o mínimo impacto possível. Mantivémo-nos nos trilhos existentes e tivemos em atenção plantas e animais (a Mongólia tem as maiores manadas de cavalos e camelos selvagens do Mundo e é lar de animais incomuns como águias douradas, leopardos das neves, ibexs e marmotas). Tivemos também o cuidado de trazer connosco o lixo e restos de comida.

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Os LR3 venceram todos os obstáculos sem pestanejar.
Os Land Rovers cor de laraja
As viaturas, todas Land Rover, provaram-se mais do que eficazes. Até os pequenos Freelanders LR2 ultrapassaram todos os obstáculos, apesar dos abusos à parte de baixo destes carros devido à menor altura ao solo. No entanto mostraram-se bastante à vontade nas dunas de areia graças ao menor peso aliado ao sistema Terrain Response que os faziam deslizar onde os outros teimavam em ficar enterrados. Os Discoverys LR3, com a suspensão pneumática que os erguem apenas com o premir de um botão, venceram  todos os obstáculos sem pestanejar. Recorremos aos guinchos apenas quando a lama tipo cola sugava as viaturas até meio das portas.

Mas a viagem mais divertida de todas foi num dos Defender 110 da equipa Recce. O rude motor 2.4 turbodiesel do Land Rover "quadrado", que já não é vendido nos Estados Unidos devido à falta de airbags, debita apenas 122CV mas uns impressionantes 360Nm de binário e em vez de uma confortável transmissão automática tinha uma normalíssima transmissão manual de seis velocidades. O resultado é um todo-terreno na forma mais pura. Os pés dançam nos pedais e a mão esquerda não larga a manete das velocidades (vindas do Reino Unido as viaturas tinham todas volante à direita) e a outra mão roda constantemente o volante de um lado para o outro para evitar pedregulhos e raízes de árvores. O motor ruge alto mas mantém-se sólido como a barragem Hoover e a carroçaria dança e torce mas o carro mantém-se sempre com os "pés bem plantados". Apesar de todos os abusos nenhum dos Land Rover teve qualquer problema.

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Os nómadas que encontrámos eram simpáticos e amigáveis.
Os acolhedores mongóis
Dizer que os mongóis levam uma vida dura é como dizer que os peixes são molhados. A maioria da população nómada que vive fora da cidade habita simples "gers" tradicionais, tendas redondas com um fogão no meio e três ou quatro camas à volta. Sem energia eléctrica (alguns nómadas mais modernos instalaram painéis solares para TVs), sem água corrente, sem WCs. A maioria vive da pastorícia de cabras e ovelhas, alguns têm manadas de camelos ou cavalos. A comida é escassa, o dinheiro ainda mais. Mesmo assim os nómadas que encontrámos eram simpáticos, amigáveis e hospitaleiros. Há um sentido de comunhão e todos estava dispostos a dar-nos indicações ou assistência quando necessário. As crianças acenavam entusiasticamente à nossa passagem e em algumas paragens aceitavam as guloseimas que lhes dávamos com sorrisos e muitos "obrigados".

Numa das noites, reunidos junto à fogueira do nosso acampamento, fomos surpreendidos pelo barulho de uma mota. A princípio pensámos que talvez tivéssemos montado acampamento no terreno de alguém. Na mota vinha um casal com uma criança encantadora. Foi uma visão surreal. Vestidos de ganga e com óculos de sol da moda pareciam saídos da Melrose Avenue. Pararam e a rapariga desmontou e retirou de uma sacola que trazia leite de égua e uma sobremesa feita de coalhada seca. Não vieram escorraçar-nos mas trazer-nos prendas de boas vindas, por termos acampado na sua montanha. Viviam numa pequena comunidade que tínhamos avistado ao longe.Tentámos agradecer com algumas embalagens de comida embalada (que provavelmente mandaram fora) e algumas guloseimas para a criança, mas visivelmente  não pretendiam nada em troca. Alguns dos mais corajosos do nosso grupo tentaram beber o leite de égua mas, tal como queijo rançoso, é um gosto adquirido.

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
Não vieram escorraçar-nos mas trazer-nos prendas de boas vindas, por termos acampado na sua montanha.



De volta a Ulan Bator a minha viagem terminou com um estrondo, literalmente. Milhares de votantes furiosos protestavam na rua acusando o governo de fraude eleitoral, enquanto a nossa caravana tentava navegar pelas ruas apinhadas de gente. Os confrontos provocaram cinco mortos, trezentos feridos e setecentos detidos. O motim trouxe-me violentamente de volta à realidade urbana das multidões e congestionamentos que cinco dias de deserto intocado me tinham quase feito esquecer. Nem que seja apenas por essa razão - fugir de tudo - acho que vamos precisar de Land Rovers durante muito tempo.

Longe de tudo - Land Rover G4 Challenge na Mongólia
O resultado é um todo-terreno na forma mais pura.
Nota do editor
Este artigo foi escrito em 2008, após as operações de reconhecimento para a grande final do Land Rover G4 Challenge de 2009. Em Dezembro de 2008, Phil Popham, Director da Land Rover anunciou o fim antecipado do G4 devido à situação global financeiramente desfavorável. Apesar de já terem sido feitos os reconhecimentos no terreno, a Mongólia nunca chegaria a receber a prova.

Temos na nossa página do Facebook um excelente trailer em vídeo desta aventura e outro do Camel Trophy na Mongólia.

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