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Expedicao Lilongwe Down - Africa num Range Rover (Parte 1)

Por Pedro Santos a terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Quando se escolhe uma viatura para percorrer África um Range Rover de 2007 não é uma escolha imediata. Mas um casal inglês, Raymond e Nereide Greaves, apostou nesta viatura para os levar de Londres à Cidade do Cabo, na África do Sul. E não se arrependeram...

Artigo e fotos de Raymond e Nereide Greaves

De volta a Londres, reflectindo calmamente sobre esta viagem, chegamos à conclusão óbvia de que, se há algum herói desta viagem é o Rangie. Na Segunda-Feira descarregámo-lo do contentor e pegou à primeira. Apesar de todo o desgaste de África, passou na inspecção sem anotações, permitindo-lhe assim percorrer novamente as ruas do Reino Unido. Claro que o primeiro objectivo da viagem era explorar África, mas uma razão secundária era responder à pergunta “Será possível atravessar África num Range Rover de 2007 (L322) praticamente sem modificações?”. Que soubéssemos era algo que nunca tinha sido feito… (Porque raio alguém colocaria sequer essa questão é outro assunto completamente distinto, envolvendo vários copos de vinho tinto e ao Range Rover ser referido como “tractor de Chelsea”). Bem… agora podemos responder a essa questão com um grande Sim!

Uma autentica casa com rodas.
Numa viagem destas tens de confiar inteiramente no teu meio de transporte. Não apenas pelo transporte em si, mas para te manter quente, fresco, seguro, proteger o equipamento, documentos e outras coisas de valor. É onde podemos guardar e preparar comida e, se tudo o resto falhar, dormir também. Terá de passar por algum do terreno mais duro, hostil e longínquo da Terra e por isso tem de ser de confiança, resistente e ter uma altura ao solo decente. Tem de ser capaz de lidar com caminhos difíceis, bastante poeirentos e tolerar combustível de qualidade variável. Óbvio também é a distância gigantesca de Londres à Cidade do Cabo por estrada (28.485Kms fizemos nós), o que significa passar imenso tempo ao volante (devemos ter feito cerca de 500 horas de condução) por isso o conforto também era importante.

Pelas razões acima mencionadas é difícil pensar numa viatura mais apropriada que um Range Rover.

Muito do caminho feito com as janelas fechadas.
Rei do conforto
Uma das melhores coisas nesta viagem foi o conforto do Range. Chegámos a passar dias inteiros sentados dentro do carro e nunca tivemos dores ou sentimos necessidade de mais apoio lombar. O aquecimento dos bancos e do volante foi muito agradável, principalmente no Inverno da Europa e nas manhãs frias da Namíbia e da África do Sul.

Muitas viaturas têm ar condicionado, mas o sistema do L322 é fantástico. Mesmo com mais de quarenta graus lá fora o AC do Range manteve sempre a temperatura nuns agradáveis 22 graus, apenas com o sistema ligado no nível 2 (de 8!). O controlo de humidade é excelente. O melhor exemplo disso foi na Tanzânia. Saímos de Arusha numa fresca manhã com 15 graus e conduzimos directamente para Dar es Salaam. Sair do carro foi um choque. Estavam mais de 35 graus e cerca de 95% de humidade, sem que nunca déssemos conta da mudança de condições exteriores. Mas o melhor mesmo foi o controlo de pó. Tal como outras viaturas o Range tem um filtro de pólen para separar os elementos alergénicos mas que também impede a entrada de pó, gazes ou cheiros desagradáveis, o que é óptimo quando subimos uma encosta atrás de um velho autocarro que cospe um fumo negro e espesso. Durante toda a viagem apenas um pouco de pó e sujidade entrou no carro o que, comparando com outras viaturas de expedição que encontrámos, nos fez sentir bastante sortudos.

Apesar da fantástica capacidade de Todo Terreno do Range Rover, a suspensão pneumática também proporciona um grande conforto em estrada que vai mais além do que apenas garantir uma viagem suave. Na realidade permite mesmo manter o controlo total do corpo, principalmente a uma velocidade mais elevada, o que ajuda imenso na condução de uma viatura deste volume e com um centro de gravidade elevado (principalmente com 200Kgs a mais no tejadilho!). O controlo do NVH (barulho, vibração e dureza) reduz imenso o barulho do vento, mesmo com a carga do tejadilho a gerar muito barulho extra, o que nos proporcionou uma viagem bastante sossegada. 

Uma "autoestrada" no norte do Quénia
Deparámos apenas com um tipo de terreno que nem o Rangie conseguiu suavizar. O terreno ondulado, característico dos trilhos não alcatroados de África, têm a capacidade de abanar as viaturas até estas se desfazerem em bocados. A suspensão pneumática também permite elevar a altura ao solo em cerca de 10 centímetros para lidar com terreno mais complicado, uma característica simplesmente imprescindível em África. Apenas uma vez raspámos com a parte inferior do Range, quando transpúnhamos as raízes salientes da estrada de Marsabit no norte do Quénia. Acredito que a altura ao solo é a característica mais útil para conduzir em África, até mais do que as quatro rodas motrizes.

Sempre seguros
Tendo estudado os diversos sistemas de segurança estou convencido de que é praticamente impossível roubar um Range Rover destes sem o fisicamente levantar e colocar em cima de um camião. Estávamos, por isso, mais preocupados que partissem uma janela para retirar alguma coisa do interior e com os raptos. De qualquer forma o escurecimento as janelas tornava difícil perceber se havia algo de valor dentro do carro e as janelas são bastante resistentes. Os raptos eram de facto mais preocupantes mas o pessoal da Land Rover em Nairobi disse-nos para não nos preocuparmos com isso. A razão é que os Range Rovers são raros em África pois têm um imposto enorme, são até duas ou três vezes mais caros que no Reino Unido, por isso os únicos que os compram são membros do governo ou pessoas muito importantes. Os assaltantes simplesmente não correm o risco de atacar pessoas destas. Ou seja, parecemos importantes e isso manteve-nos seguros.

Alguma manutenção básica.
Manutenção e fiabilidade
Estranhamente o Rangie não falhou uma unica vez apesar das más estradas, combustível de qualidade suspeita, montes de pó, calor imenso, humidade e altas altitudes. Foi um amigo de confiança considerando que África costuma desgastar bastante as viaturas. Não sabemos de mais nenhuma expedição destas em África que tenha tido tão poucos problemas com as viaturas (Land Cruisers incluídos).

A facilidade de manutenção foi uma surpresa numa viatura moderna, ultra complexa como esta. Todos os sistemas de filtros foram construídos de modo a permitir um fácil acesso e substituição. Percebe-se o quanto isto foi pensado quando se retira a caixa do filtro do ar cujos parafusos estão seguros para não caírem. Apreciam-se estas coisas quando se está a fazer este trabalho numa rua de Khartoum. Depois de mudar o filtro de combustível o sistema purga o ar automaticamente. Brilhante! O filtro do óleo é dos mais fáceis que já vi num automóvel, podendo ser feito de cima o que significa que não temos de nos arrastar pelo chão à procura dele. O filtro do pólen demora dois minutos a ser mudado pois trata-se apenas de um encaixe. Há até um pequeno marcador flutuante para se ver bem o nível de líquido refrigerante. Todas as ligações eléctricas estão vedadas com um sistema triplo, para manter afastado o pó e a humidade. Nota-se que tudo isto foi pensado. Ficámos de facto impressionados.

Antes de sair de Londres fizemos uma boa revisão ao Range Rover pois sabíamos que a próxima vez que teria os cuidados de um especialista seria em Nairobi, a mais de 12 mil quilómetros de distância. A nossa ideia era tomar conta do Range para que ele tomasse conta de nós. Diariamente verificávamos o nível do óleo, do líquido de refrigeração e do óleo de travões, bem como debaixo do carro para identificar eventuais fugas ou danos. Surpreendentemente nunca perdemos nenhum fluido em toda a viagem nem sofremos quaisquer fugas ou danos. Tomámos bastante atenção aos pneus e às pressões do ar e talvez por isso não tenhamos tido qualquer problema de pneus, apesar das péssimas estradas. Vêem-se bastantes restos de pneus nas bermas das estradas africanas, principalmente nas zonas mais quentes, o que mostra bem o que os pneus sofrem nestas condições. Normalmente acerta-se a pressão com os pneus frios mas descobrimos que assim os pneus traseiros excediam o máximo aconselhado (50psi) quando seguíamos no alcatrão quente. Fomos experimentando com várias pressões o que certamente nos evitou alguns rebentamentos.

Pó e gravilha são dos maiores inimigos numa viagem destas, entranhando-se por todo o lado, prendendo todas as peças que puderem. Depois de viajar por uma estrada particularmente poeirenta, como as na Namíbia, limpávamos os vários componentes com ar à pressão, nomeadamente os radiadores e o compartimento do motor, que até mostrou ter um bom isolamento. Sempre que possível lavávamos com água à pressão a parte de baixo do Range e os componentes de suspensão. Em Nairobi, no Quénia, levámos o Rangie ao representante da marca, umas instalações relativamente modernas. O carro foi lavado à pressão, foram mudados os óleos e os filtros e os limpa pára-brisas. Foram também substituídos alguns sinoblocos e rolamentos que já tinham quase 150 mil quilómetros quando as estradas do norte do Quénia as destruíram. O custo total rondou as 875 libras. A mão de obra é mais barata que no Reino Unido mas as peças são bem mais caras. De qualquer forma saímos de lá com o carimbo da Land Rover no livro de manutenção do carro. Em Maun, no Botswana existe um pequeno representante da marca que, muito gentilmente, nos deixou utilizar as suas instalações. Mudámos o óleo e os filtros e, apesar de nada nos ser cobrado, demos uma boa gorjeta aos funcionários que nos ajudaram e ficámos com outro carimbo da marca no livro de manutenção. Em Joanesburgo, já na África do Sul, fizemos novamente uma boa manutenção pois o Range Rover tinha tanto pó que já devia ter asma.

Um dos poucos furos que tivemos.
Algumas coisas que poderiam ser melhoradas
O nosso trajecto por África foi extremamente montanhoso, parecíamos que estávamos sempre a subir ou a descer e com as elevadas altitudes e carga considerável a caixa automática ligada ao Td6 do Range revelou-se o elemento mais fraco deste conjunto soberbo. A diferença entre a 2ª e a 3ª é muito grande, notando-se particularmente quando se sobe trilhos de montanha em altitude. Para se manter uma velocidade média nestas condições o motor tem de andar em 2ª com uma rotação elevadíssima ou em 3ª perdendo toda a força. A electrónica da caixa raramente conseguia decidir na mudança correcta por isso optámos várias vezes pelo controlo manual. Também gosta muito de andar em 5ª, provavelmente por razões de economia, mas depois mostrava-se relutante em reduzir de engrenagem quando é necessária mais força. Novamente uma questão que se nota mais em altitude, quando o motor desenvolve menos potência. Chegámos a seleccionar a opção Sport apenas porque esta não contempla a 5ª velocidade. Esta opção tem o benefício adicional de tornar as mudanças mais sensíveis à aceleração, vantajoso para manter a velocidade a subir ou para ajudar a travar com o motor quando se desce.

O sistema de refrigeração nunca foi um problema, não parecendo estar nunca em esforço, mas a ventoinha é extremamente barulhenta quando entra em acção, o que até foi bastante raro. No entanto notámos que a ventoinha ligava aos 1500m acima do nível do mar e ficava ligada até baixar a altitude. Dado que toda a Etiópia está acima dos 2000m a ventoinha ficou ligada durante duas semanas! Chegámos a pensar que estava com algum problema, mas quando descemos para o norte do Quénia verificou-se que não. Será que esta medida de segurança é de facto necessária? 

O macaco de origem não é, de todo, adequado. Levantar um veículo pesado com uma suspensão grande não é fácil e este macaco é apenas capaz de o fazer por pouco. Não tínhamos espaço para levar um macaco em condições e o Range não está adaptado para podermos utilizar um hi-lift normalmente utilizado nestas expedições. Se tivéssemos tido um furo fora de estrada ou em terreno mole teríamos tido problemas.

Poucas coisas correram mal. Realmente não temos nada de mais a assinalar. Os sensores de estacionamento levaram com tanta gravilha que simplesmente deixaram de funcionar. Depois da terrível estrada de Marsabit o ecrã do carro deixou de funcionar. Isto significava que não tínhamos musica, informação de consumo de combustível nem GPS. Antes de entrar em pânico retiramos o fusível correspondente… aguardamos um pouco… e voltámos a colocar. O ecrã ligou e nunca mais teve problemas. Uma manhã, na Etiópia, um simpático mas pouco prático senhor lavou o carro, sem que lhe pedíssemos e, como tínhamos recolhido os espelhos na noite anterior, ele forçou-os a abrir à mão. Agora ao carregar no botão para recolher os espelhos recolhem de facto mas voltam a abrir de imediato. Felizmente foi uma viagem excelente.


Iremos publicar os relatos da Expedição Lilongwe Down em várias partes. Vais ficar a saber que modificações foram feitas ao Rangie, que equipamento levaram e todas as histórias desta viagem. Subscreve a nossa newsletter para não perderes nada desta fantástica aventura.

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2 comentários:

  1. Sinceramente já estou farto de velhos do restelo. Esta é mais uma das provas em que é possível ingressar em percursos offroad e duros com todo o conforto. Aliás, está mais que provado que a electrónica não existe para se avariar, mas que facilita e em muito quem tem menos experiência nestas andanças ou "não se quer chatear muito". Não é necessário um fogareiro para sair da estrada - e não são poucas as vezes que discuto isto com outras pessoas

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  2. Boas Ricardo, obrigado pelo comentário.

    Presumo então que sejas um adepto do novo DC100?

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